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11/09/13

Garimpeiros/Caçadores


Estava-mos numa zona de exploração diamantífera, e consequentemente tínhamos os nossos garimpeiros.
Aqueles que acreditavam que podiam, num golpe de sorte, resolver os seus problemas económicos, se encontrassem alguma pedra.
 
Era vê-los de corda amarrada a cintura mergulhando, até ao fundo do rio trazendo montes de areia.
Que se saiba nenhum, foi bem-sucedido, em termos de sorte, mas nesses momentos o seu espírito descansava, e isso dava alento para continuar. Não se diz que o sonho comanda a vida?
 

Também faziam parte da vida entre outras as caçadas à noite. De farolim lá partiam alguns companheiros que com sorte lá eram bafejados com um pouco de carne frescas das poucas cabras que ainda deviam restar por estas localidades

Henrique de carvalho

Henrique de Carvalho
 
Finalmente chegamos à cidade de Henrique de Carvalho onde se encontrava sediado, o Comando de sector.
Foi uma curta paragem pois, a tarde já ia adiantada, pelo que fomos informados que o nosso destino seria um lugar chamado Chimbila.
 
Muita atenção. Era a recomendação dos comandantes de grupo aos seus homens, já que iríamos entrar numa zona de guerra, se é que esta imensa terra não era toda ela uma terra em guerra. Enfim coisas dos inteligentes que a faziam.
Nova paragem desta vez em Dala, pequena localidade considera vila, meia dúzia de casas um machambeiro de alcunha o “coragem”.
Contavam, outros habitantes, que no início da guerra nestas paragens o tal homem fazia frente aos guerrilheiros. Esta figura exploradora das gentes desta zona gabava-se de conhecer lugares que teriam sido pequenos povoados onde ninguém tinha sido poupado dizendo-nos que se um dia quiséssemos construir uma fábrica de botões não faltaria ali matéria-prima. Era na sua venda onde se podia comprara de tudo, desde sapatos até pastilhas Melhoral lugar onde a população tinha sempre uma divida por saldar, mistérios insondáveis e que este escrivã nunca conseguiu desvendar.
 Algumas das nossas “missões” foi muitas das vezes servirmos de guarda-costas a este tipo de gente que de aldeia em aldeia comprava as sobras (?) aos locais por um preço irrisório o que levava a revolta de quem assistia, mas nada podia fazer. Estes eram os colonos as vítimas do pós-25 de Abril.
 
Nesta localidade com piscina natural em umas quedas do rio Dala ficou instalado o comando de batalhão.
Nós ainda tínhamos mais uns quantos km para percorrer até ao nosso destino final.

Os avisos de ter mais e mais cuidado foram intensificados dado que era nestas alturas que os «turras» (1) mais atacavam tentando tirar partido da nossa pouca experiência e nervos. 

Biula

Biula, uma pequena aldeia indígena, a onde nos esperavam os "velhinhos" (1) que íamos render. 
 
Ali estavam os «maçaricos» (2) com as fardinhas a cheiraram a “ bacalhau” – era assim que o cheiro a novo era rotulado –, para que eles pudessem rumar a outras terras menos inseguras, para o repouso antes do regresso ao «Puto».
A alegria estava-lhes estampada no rosto.
Finalmente.
Até que, enfim.
Desta é que é.
Eram as expressões mais ouvidas.
Mas...também nos esperava, uma torrente de recomendações, que se veio a verificar não passavam do "baptismo". Eram as praxes! Pernoitamos ao relento, nós e os camaradas da 3439, que ainda tinham de percorrer, mais uns quilómetros, estes sim de verdadeiro perigo pois iriam  por picada, (3) que aqui no leste são quase de areia, facilitando a colocação de minas anti-carro.
No Biula, muitas farras foram vividas, muitas saudades devem ter ficado... era lá que um corpo nu bonito de se ver, esperava o jovem soldado.
Quanto irá pagar? Quando regressado uma dúvida se lhe poderá colocar no Biula ou noutro lado, algum filho terá ficado? 
E como irá a mãe explicar ao irmão negro a diferença.
E sabe-se lá quantos corações sangrando.
Eram assim estes tempos de guerra. Chegar, conhecer, alguém e ter de partir...

( 1 - Os soldados em fim de comissão.
( 2 - Os soldados que estavam a iniciar a comissão.
( 3 - Caminho de terra batida.

  

Chimbila:destino negro



27 de Outubro de 1971, tardinha ali estava Chimbila, uma povoação, entre Henrique de Carvalho e cidade do Luso. Para se lá chegar – felizmente para nós –, fazíamo-lo por estrada alcatroada, o que sempre nos livrava das minas anti-carro.

Situada no leste de Angola, distrito da Lunda, que tinha uma área geográfica de 167 786 Km2. A capital do distrito é Sáurio (nome que os naturais de Angola davam a Henrique de Carvalho. Este distrito era dividido do Moxico pelo rio Cassai, que nasce perto de Monhonga (?) atravessa as zonas de Camanongue (Buçaco), Cassai, Luau (Teixeira de Sousa) inflectindo então para norte e servindo de fronteira com a Republica Democrática do Congo, até ao paralelo 7* 17" çat. S, continuando o seu percurso por terras congolesas até confluir na margem esquerda do rio Zaire. Recebe como principais afluentes o Chicapa, Luachimo, Chiumbe e Luembe. Numa extensão de 400Km.

Toda esta região tinha uma altura média de 1300m. e clima tropical com chuvas no tempo quente (Outubro a Maio), insuficientes para a agricultura.
Os naturais cultivavam principalmente mandioca, massango, massambala, tabaco, milho feijão e amendoim. Caça e pesca fluvial Esta seria para nós a zona de combate.
Tinha, sido antes da guerra eclodir, um lugar de comercio, já que ainda lá se encontravam as casas dos colonos. Como seriam os tempos naquele local? Quanta seria a sua população?
Não nos é possível sabe-lo.
Chimbila iria ser a nossa casa por largos, e penosos meses.
Não passava este (aquartelamento) de meia dúzia de quimbos, muitos deles com o chão cimentado outros forrado a garrafas de cerveja, enterradas com o fundo virado para cimas

A porcaria, era mais do que muita, por todo o lado se viam galinhas pequenas hortas – talvez para matar saudades – e até suínos. Esta malta, que vínhamos render, esteve aqui toda a sua comissão. Eram o que se chama na gíria militar uns " baldas".

As, estórias que nos contavam a ser verdadeiras, – e porque não – eram o sinal mais do que evidente de que esta guerra ia ser perdida. Os soldados já não tinham o moral elevado e o sentido de patriotismo, era qualquer coisa de difuso e vago.
Por se terem recusado ou disfarçado de fazerem as operações, por não terem feito nada para dar um pouco de dignidade ao local, foram castigados e estiveram toda a comissão nesta zona.
Quando partiram fizeram uma “farra” enorme, que foi bem regada de cerveja e vinho.
Vê-los partir lembrou-nos que era chegada a nossa vez.


Depois de nos instalar-mos, e de se ter organizado a vida neste rectângulo de terra batida, toda cercada por florestas – a cidade mais próxima a antiga Luso ficava a mais de cem quilómetros – foi preocupação do nosso então comandante de companhia capitão Azuil, proceder-se a limpeza e reorganização do espaço.
Foram montadas, camaratas pré-fabricadas, e foi dada uma cama, com colchão de espuma, lençóis e mantas. Um luxo para quem andou durante alguns meses a dormir, sempre e precárias condições.
Aqui em Chimbila havia água quase sempre, porque os velhinhos tinham montado uma bomba que muitas vezes recusava-se a trabalhar. Valia-nos que perto corria o Cassai mais afastado um pequeno ribeiro de águas límpidas e frescas. Era aqui que nos abastecíamos do líquido da vida e tomava-mos os nossos deliciosos banhos, sempre vigiados talvez à distância por elementos ditos de informação.

Havia também um alto depósito.
Não sofremos ataques nesta zona. Tinha sido celebrado um acordo com Jonas Sabimbe, que deveria isso sim combater o MPLA, mas isso são outras histórias que se contaram mais tarde.

Era assim esta guerra suja. 
O nosso capitão Azuil, sempre nos foi dizendo que não estávamos ali para acabar com a guerra mas, para cumprir o tempo da comissão.
Passou afazer parte da nossa actuação, a distribuição pelo natal e noutras ocasiões de comida roupa e outras ofertas à população do Biula, a que ficava mais próximo de nós.
No meio desta selva de sons, poder olhar a natureza, o azul intenso do céu em toda a sua plenitude era para nós algo de reconfortante para o espírito, o silêncio era apenas cortado pelo ronco do trabalhar dos motores dos carros e de um ou outro helicóptero, em missão.


As «cucas» eram a animação da malta e os Furriéis milicianos, faziam, jus ao espírito de estudante. Era cada camuéca  de se lhes tirar o chapéu. 

24/05/12

Arroz de espinhas

Arroz de espinhas


Hoje vou partilhar com os meus queridos visitantes, mesmo aqueles que conviveram estes momentos, uma parte da minha estória pessoal, quando “comemoro” dentro de dias 37 anos sobre os acontecimentos.(Este escrito estava no blogue que encerrei)

Por certo alguns dos meus ex-camaradas já esqueceram outros irão recordar e aqueles que mais de perto tiveram conhecimento do caso sabem que é verdade.

Estávamos em pleno mês de Julho de 1972, em Chimbila.

Nesse dia o rancho – terceira refeição, ou melhor jantar – iria ser arroz de bacalhau.
Dá vontade hoje como nesse dia de rir só de lembrar que iríamos comer bacalhau, essa espécie rara e em vias de extinção, não sei se era o pescado o Oceano Atlântico – o chamado da Noruega se o do Oceano Pacífico –, mas também não é relevante para o caso em apreço. Certo é que nem no natal esse desgraçado caiu na mesa, tal era a raridade.

Como na altura desempenhava a função de cantineiro, e porque a respectiva cantina era paredes-meias com o “armazém” de géneros apercebi-me no dia antes de alguns movimentos a horas pouco convenientes para se estar nesse local.

O certo é que no prato o bacalhau … era velo.

Já sabíamos que iria acontecer, e como tal alertamos os camaradas para não se sentarem e nem comerem, até a chegada do “Tigre da Malásia” ou seja o capitão, comandante de companhia.

Este senhor, quando entrou no que se chamava refeitório, atirou uns bitaites para o ar e retirou-se.

Nunca tinha sido nossa intenção não comer. Essa seria uma grande estupidez, já, que pelo menos, o dito arroz de bacalhau, ao mesmo sabia.

Porque alguém, – que até aos dias de hoje nunca soube – foi qual bufo, cantar aos ouvidos do Tigre, este implacavelmente aplicou-me uma pena de prisão de 20 dias, aliás, o máximo que lhe era concebido pelas leis militares.

Teve azar. Nunca comemos e calamos, e nessa circunstância também não o fizemos e em boa hora.

Arriscando um pouco mais, expusemos ao Comando de sector o que tínhamos observado. Para os que passaram pelo Leste de Angola, deverá por certo apenas dizer que esse comandante, Passos de Esmeriz, mais conhecido entre os militares por: Asa Negra.

Foi lindo ver ao fim de 25 dias a cara do Tigre, quando me apresentei na companhia.
O que passou a correr de boca em boca é que eu tinha um grande padrinho. Mas, não tinha, foi a justiça do meu gesto reconhecida e disso se puderam queixar, tanto o Sargento responsável como o furriel vagomestre, que viram também a sua caderneta manchada, com o castigo.


A grande perda, que tive foi no meu pré já que com o castigo fui despromovido e consequentemente o mesmo foi reduzido, e assim lá deixaram menos umas “cucas” “de irem abaixo.
O tempo foi decorrendo, na sua marcha lenta, rumo ao fim de comissão.
O Tigre da Malásia reuniu com os oficiais e sargentos de carreira, para distribuírem alguns louvores, por aqueles que entendessem serem dignos dos mesmos.

Se desprestigio algum para os próprios, se uns foram bem entregues, outros pela justificação apresentada em ordem de serviço, não nos se apresentam ainda hoje justificados.

Ser louvado em campanha por ter servido bem à mesa os senhores oficiais, não será de todo uma justificação.

Como tínhamos sido punidos e muito mais foi sugerido o nosso nome para um louvor tanto mais, que tínhamos sido o autor do crachá e construtor do memorial aos camaradas tombados.

A reação do Tigre foi: NÃO.


Porque lemos a ordem de serviço, e nos sentimos injustiçados, correndo o risco de nova punição, passamos à acção, que é com quem diz gozar como dizia um … o meu grande prato.
Assim solicitamos ao cabo Cruz um Cabo-verdiano, – que desempenhava as funções de carpinteiro, e não foi louvado, não obstante acumular a função de operacional –, que nos construísse uma caixa de engraxar sapatos.

Pronta, fomos nos colocar a entrada da messe de oficiais, para dar “graxa” aos ditos a fim de conseguir o dito louvor.

O tigrezinho arreganhou os dentes – por sinal amarelos como o dos elefantes –, e nada disse.

Afinal tinha escapado e a justificação é que estava cacimbado.

Uma ova é que estava.

Link para este artigo: http://companhiadecacadores3440.blogspot.pt/2012/05/arroz-de-espinhas.html

Iscas de fígado não são salsichas.

Iscas de fígado não são salsichas.

- Então Sr. Portela, o que vamos ter para o almoço amanhã? (Capitão Azuil)
 - Iscas de fígado, meu capitão. Respondeu o Portela
 
-Boa, até que eu preciso delas pois já perdi parte do meu! (Ferido em combate) No dia seguinte, quando o Sargento dia levava a prova do almoço ao capitão e este deparou com umas salsichas e ovos, claro que ia voando o prato mais as salsichas e gritou:

-Sr. Portela, onde estão as iscas que me prometeu ontem?

- Desculpe meu capitão mas não havia carne de fígado para tanta gente e substitui pelas salsichas.

- Uma boa salsicha me saiu você, pôrra.

Escrita e recebida por mail do amigo Portela